Linux: qual o verdadeiro papel da comunidade?

Desde sua criação em 1991 o Linux mudou muito; deixou de ser um sonho para se tornar uma realidade cada vez mais presente e acabou mostrando que pode ser uma escolha muito rentável para empresas com alguma mente aberta e empreendedorismo. Muitas empresas inteligentes perceberam que abrir o código de seus produtos facilita o desenvolvimento porquê, verdade seja dita, não há nada como ter milhares (ou até milhões) de programadores trabalhando de graça para implementar melhorias ao seu produto. Isso também significa que desenvolvedores de outros produtos terão a capacidade de aumentar a interoperabilidade com seus softwares e, no que diz respeito ao seu software, é sempre bom que ele seja usado, citado ou mesmo usado como base para plug-ins de terceiros. Foi dessa forma que o cenário do Linux mudou bastante. Já não se tratava mais de uma excentricidade, o sistema vinha, cada vez mais, parecendo um bom negócio.

Mais que um bom negócio, uma coisa vinha ficando bem clara: desktop não dá lucro. Isso, que o diga a Microsoft, que chega a ter até 86% de sua base instalada pirata em países como a China, e que tem números engraçados como “gastar mais com custos telefônicos do que faturar com vendas do windows desktop” (que não posso confirmar se é verdade porque li em um lugar e não achei a referência)... No entanto, o que importa é isso “desktop não dá grana” e deve ser por esse motivo que o Linux está ainda tão atrasado nesse meio, já que ao longo do tempo o cenário do Linux se transformou em um mercado corporativo e como tal é dominado por empresas.

Sim, é isso... estudos recentes da “The Linux Foundation” evidenciam o que muita gente já sabia: são as empresas que mandam no desenvolvimento do Linux. Pelas estatísticas, há mais de 1000 programadores dando duro em escrever o código do kernel e entre 70% e 95% desses desenvolvedores são pagos para fazê-lo e mais de 70% dessas contribuições são feitas por programadores que trabalham em grandes empresas. Pode ser por isso então que o Linux como Desktop não alça vôo, visto que o mercado de Desktops vem em segundo plano para as grandes empresas (dizem até que o Windows desktop nunca foi o maior provedor de lucro para a Microsoft e que ela tem outros produtos que vendem bem mais).

O ponto aqui, no entanto, é o seguinte: onde entra a comunidade nisso, já que agora quem manda são as empresas? Suse, Mandriva, Red Hat, Canonical, Mozilla, Sun... são todas gigantes (algumas mais que outras, claro), mas todas elas visando algo mais que contribuir para a liberdade do software (sentiram a ironia? :-) ). O Linux cresceu, e nunca cresceu tanto como cresce agora, mas o Linux comunitário, aquele feito “pelo povo e para o povo” ainda existe?

Toma-se como exemplo o desenvolvimento de uma distro grande como o Fedora (que é bancado pela Red Hat), mas suponho que o processo todo seja muito semelhante para as outras. A grande maioria dos desenvolvedores diretos são engenheiros contratados e que fabricam a distribuição de acordo com as metas estabelecidas pelos diretores. Não cabe a nós definir a lista com codinomes para os outros votarem, nós só votamos, mas não indicamos nenhum nome (no caso do Fedora). Isso, até bem pouco tempo, era um privilégio exclusivo da Red Hat e agora é privilégio dos desenvolvedores. Nem embaixadores, nem desenhistas, nem escritores e nenhum membro da comunidade pode indicar um codinome, nesse caso o processo é fechado.

Outro bom exemplo é o GNOME. Quem usa conhece a interface spatial, que é aquela onde cada vez que você clica em uma pasta, uma nova janela se abre e a antiga permanece. Nunca na vida conheci uma pessoa que gostasse da interface spatial e todo mundo sempre acaba mudando as opções para navegar no estilo “browser” que abre todas as pastas na mesma janela. Segundo os desenvolvedores, o modo spatial é melhor que o modo browser porque “traz a sensação de uma mesa de verdade, com papéis espalhados e tudo”. Também acham óbvio que dando dois cliques com o botão do meio o modo spatial abre sempre na mesma janela (alguém sabia disso?). Mas o ponto é que se a comunidade não gosta do modo spatial, porque ele vem por default? E porque não mudaram? Certamente, só na cabeça de um desenvolvedor pérolas do tipo “todo mundo abre um terminal e edita um arquivo no VI” podem fazer sentido.

Não digo é claro, que a comunidade não participa de nada; a comunidade traduz, dissemina, reporta bugs (que nem sempre são bem atendidos por algum desenvolvedor arrogante que teima em dizer que o problema não existe) e faz desenhos, mas não decide quais pacotes quer usar, nem como quer que o sistema funcione. Como disse um sábio, as empresas deixam que usemos o Linux delas.

Contribuir mais profundamente não é fácil, todos sabemos. O grau de especialização cresce de acordo com a profundidade do desenvolvimento. Já imaginaram se todo estudante do primeiro semestre de computação quisesse adicionar seu código ao kernel? Ou se cada moleque que faz uma calculadora em C++ decidisse adicionar o “programa” na árvore oficial?

Qual é, realmente, o papel da comunidade nisso tudo? O que vocês acham a respeito? Notem que aqui não estou falando de uma distribuição específica; todas têm seus problemas (Fedora, Suse, Ubuntu...). O ponto crucial é que o Linux está mudando e por detrás de um grande Linux está sempre uma grande empresa... isso não é coincidência, posso apostar. :-)

Estatísticas do Kernel

  • O número de desenvolvedores do Kernel triplicou nos últimos 3 anos.
  • Neste momento contribuem com cada Kernel, mais de 1.000 programadores procedentes de mais de 100 organizações.
  • Entre 70% e 95% destes desenvolvedores recebem uma remuneração econômica por seu trabalho (o que cai por terra o mito de que a maior parte dos programadores de software livre não recebem nada pelo código que produzem).
  • Mais de 70% das contribuições ao Kernel são provenientes de programadores que trabalham em empresas como IBM, Intel, The Linux Foundation, MIPS Technology, Novell e Red Hat.
  • Cada dia são adicionadas uma media de 3.621 linhas de código ao Kernel.
  • Um novo Kernel é liberado, em media, a cada 2,7 meses.
  • O tamanho do Kernel tem crescido em 10% a cada ano desde 2005.
  • Nunca na historia da computação houve tantas empresas, organizações, desenvolvedores e usuários trabalhando em um só projeto de software.

Dentre todos os detalhes citados, dois chamam mais a atenção, o que se refere a porcentagem de desenvolvedores do Kernel que cobram por seu trabalho, e as empresas que pagam esses desenvolvedores, sendo que as que mais contribuem são:

  1. Red Hat (11.2%)
  2. Novell (8.9%)
  3. IBM (8.3%)
  4. Intel (4.1%)
  5. The Linux Foundation (3.5%)
  6. SGI (2.0%)
  7. MIPS Technology (1.6%)
  8. Oracle (1.3%)
  9. MontaVista (1.2%)
  10. Linutronix (1.0%)
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6 Responses to “Linux: qual o verdadeiro papel da comunidade?”


  • Cer­ta­mente q uma grande dis­tro sem­pre terá uma empresa por trás, ñ há como ser dife­rente, o Linux ñ é algo q um bando de nerds ide­a­lis­tas pos­sam dar conta já há muito tempo.

    Mas acho q a comu­ni­dade tem par­ti­ci­pa­ção e q o desk­top ainda é o carro-chefe, ñ pra ganhar dinheiro ven­dendo sis­tema pra desk­top, pq como colo­cado aqui mesmo, nem a M$ faz isso, mas dizer q ñ dá dinheiro é ‘nonsense’.

    Nenhuma dis­tro q se preza vende pra desk­top, em 1º lugar, pq ñ é assim q se ganha dinheiro com desk­top, mas tenho base ins­ta­lada. A M$ per­ce­beu isso há muito tempo e ñ faz tanto esforço assim pra impe­dir a pira­ta­ria, pq se o usuá­rio domés­tico usa win, o q ele vai usar no tra­ba­lho? Natu­ral­mente o mesmo.

    O q pra­ti­ca­mente todas as gran­des dis­tros fazem señ tor­nar o Linux cada vez mais pala­tá­vel ao usuá­rio comum? O inves­ti­mento na qua­li­dade de suas fer­ra­men­tas e o foco na faci­li­dade de uso é o q toda dis­tro q cresce faz. Além do q, a mai­o­ria dos paco­tes ñ tem seu desen­vol­vi­mento rela­ci­o­nado dire­ta­mente ao ker­nel, o desen­vol­vi­mento do ker­nel sem­pre foi e vai con­ti­nuar sendo pra pou­cos. E nisso a par­ti­ci­pa­ção da comu­ni­dade sem­pre será pequena, isso ñ vai mudar.

    Assim, acho q as esta­tís­ti­cas de desen­vol­vi­mento do ker­nel ñ tem como refle­tir par­ti­ci­pa­ção ou falta dela, o q sem­pre vai encon­trar de dire­fente, e aí sim teria como ava­liar a par­ti­ci­pa­ção da comu­ni­dade, é no desen­vol­vi­mento de scripts, paco­tes, repo­si­tó­rios ñ ofi­ci­ais, q hj quase todos usam.

    O foco das empre­sas nessa área tende a aumen­tar e dis­po­ni­bi­li­za­rem cada vez mais paco­tes em seus repo­si­tó­rios, mas isso ñ vai suplan­tar a par­ti­ci­pa­ção da comu­ni­dade, acho até q pode agir como cata­li­za­dor do pro­cesso e aumentá-la. Mesmo q seja pra ter uma infi­ni­dade de paco­tes, mui­tos com fun­ci­o­na­li­da­des seme­lhan­tes, por ñ ter a mesma orga­ni­za­ção q uma empresa teria.

    Vamos ver até onde isso vai.

  • Hj, as dis­tros do Pc popu­lar lucram ven­dendo suporte, n licensa. C bem q o Linux só vai ser usado d ver­dade nas resi­den­cias e con­se­quen­te­mente nas empre­sas quando hou­ver cur­sos bási­cos pro sis­tema. O certo seria ter curso pra quem nunca usou um micro na vida e outro pra quem já tem conhe­ci­mento no uso do Win e do Office, mos­trando a dife­rênça entre ambos.

  • Muito bom esse Artigo!
    Nota 1000!

  • Minha avó nunca vai ins­ta­lar um Slackware. Mas o Slackware nem por isto dei­xará de existir.

    O Linux sur­giu do esforço de uma pequena comu­ni­dade. Seu uso era tão res­trito a estes ver­da­dei­ros Hac­kers — no bom sen­tido — que mui­tas pes­soas caço­a­vam do seu futuro.

    Empre­sas entra­ram neste ramo. O mundo pas­sou a acre­di­tar e a res­pei­tar o sis­tema. Mas isto não sig­ni­fica que a minha avó vai com­pre­en­der o que sig­ni­fica “repor­tar um bug”. O que esta­mos obser­vando é uma grande massa uti­li­zando Linux pro­du­zido por gran­des empre­sas… Mas aquele grupo de Hac­kers eclé­ti­cos, que tei­mam em uti­li­zar o VI con­ti­nua exis­tindo. E con­ti­nua a desen­vol­ver seus pro­gra­mas, ambientes…

    Mesmo que hoje a quan­ti­dade de desen­vol­ve­do­res volun­tá­rios seja menos de 30%, não acre­dito que exis­tam menos desen­vol­ve­do­res volun­tá­rios que há 10 anos atrás. Então a par­ti­ci­pa­ção da comu­ni­dade de fato não dimi­nuiu. Ape­nas as empre­sas entra­ram com uma par­ti­ci­pa­ção impor­tante, capas de popu­la­ri­zar o sis­tema e ocu­par posi­ções importantes.

    E o Soft­ware Livre nunca dei­xará de ser livre. Se hoje con­se­gui­mos supor­tar seu desen­vol­vi­mento e remu­ne­rar a maior parte dos desen­vol­ve­do­res, sig­ni­fica que o modelo fun­ci­ona. Sig­ni­fica que soft­ware de qua­li­dade não exige res­tri­ções legais para uso.

    O Soft­ware livre nunca dei­xou de ser livre por­que a comu­ni­dade não tem mais o direito de nomear uma dis­tri­bui­ção. A comu­ni­dade sem­pre poderá deri­var outra com outros nomes quais­quer. E, neste sen­tido todos temos o direito de fazer a dis­tri­bui­ção ou os pro­je­tos da forma que dese­ja­mos. Se eu lanço um filhote de Kuru­mim que dá Boot e começa a falar tudo o que está escrito na tela, isto pode ser irri­tante para muita gente. Mas para mim, que sou cego, é a melhor forma de tra­ba­lhar. Nin­guém é obri­gado a uti­li­zar a minha distribuição.

  • Debian. Da sua con­cep­ção, seu Con­trato Social e hoje, é o mais “demo­crá­tico” nos ter­mos citados.

    Pra­ti­ca­mente tudo é votado (orga­ni­za­ção, estru­tura, etc) e tes­tado nos pro­gra­mas de popu­la­ri­dade (no dos paco­tes), basta acom­pa­nhar as lis­tas de dis­cus­sões. A pró­pria arqui­te­tura do sis­tema de paco­tes per­mite que o usuá­rio decida o com­por­ta­mento do sistema.

    Entendo que a turma do Debian não tenha tama­nha par­ti­ci­pa­ção na quan­ti­dade de código par­ti­ci­pante no ker­nel. Mas empa­co­tar e auxi­liar usuá­rios em qual­quer um deles (não ape­nas os inclu­sos no CD padrão de ins­ta­la­ção) é um esforço maior para a apro­xi­ma­ção ao desktop.

    Em outras pala­vras, entendo que o Debian (Debian PURO, nada de Ubuntu ou simi­liar) que é com­posto por uma comu­ni­dade lite­ral acaba, mesmo que não tão apa­ren­te­mente, cri­ando uma outra base de apoio á Comu­ni­dade (GNU/Linux).

    Não me refiro ao caso ape­nas de empa­co­ta­mento (pois qual­quer dis­tro passa a ofe­re­cer um ser­viço tal). Mas sim à aten­ção em veri­fi­car quais paco­tes real­mente os usuá­rios tem requi­si­tado. Digo por expe­ri­ên­cia própria.

    Na ques­tão levan­tada pelo artigo, acho que o Debian deve­ria ser nova­mente olhado com mais aten­ção (infe­liz­mente, ele tem sido dei­xado de lado ou “esque­cido” pela popu­la­ri­dade do Ubuntu), pois é desen­vol­vido intei­ra­mente por comu­ni­dade, há diver­sos times esfor­ça­dos para apli­ca­ti­vos desk­top e qual­quer um pode ter participação.

    Ape­nas para exem­pli­fi­car (não estou fazendo fla­mes… é ape­nas exem­plo!): quando o Ubuntu iniciou-se, sua árvore de paco­tes era uma cópia da Debian. Os paco­tes Debian con­ti­nu­a­ram sendo for­ne­ci­dos para os repo­si­tó­rios Ubuntu. O Ubuntu foi cres­cendo, che­gando a ser eleito para ser dis­tri­buído em PCs de mon­ta­do­ras famo­sas como ambi­ente desk­top (pois já pos­suía fama por ser ade­quado para desk­top). Nesse meio cami­nho, a árvore de paco­tes Ubuntu foi per­dendo com­pa­ti­bi­li­dade com a Debian (os desen­vol­ve­do­res mais ávidos sabem o pro­blema que dá) e mui­tas coi­sas que deve­riam apa­re­cer como con­tri­bui­ções a dis­tri­bui­ção da qual se ori­gi­nou aca­ba­ram sendo desen­vol­vi­das com por­tas fecha­das. O Debian nem por isso dei­xou de for­ne­cer a estru­tura e cer­tos paco­tes. Até hoje.

  • Con­si­dero, q a comu­ni­dade ñ impor­tando se paga ou ñ, faça o papel criar alguma forma de faci­li­tar a vida do usu­a­rio domés­tico. O M$ ruin­dows tem seus pro­ble­mas de segu­rança mas ins­tala tudo q o usuá­rio quer, o Linux por sua vez ofe­reçe os pro­gra­mas em paco­tes com a faci­li­dade de baixa-los e cal­cula suas depen­de­cias, mas quando o usu­a­rio comum tenta rodar dar algum tipo de erro e.… Isso tira o amimo de quem ta comer­çando ou pior ainda de quem já conheçe o Ruin­dows. Outro ponto e a inta­la­ção de dri­ver , pois na minha o linux só ñ é padrão por falta de dri­ver de um certa impressora.Facilidade e Segu­rança tem q andar jun­tos isso esse é o papel da comunidade.

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